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Angola estrutura o turismo como eixo estratégico de diversificação económica
Tempo de liberação:2026-08-25
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Angola está a posicionar o turismo como um dos pilares centrais da sua estratégia de diversificação económica, enquadrando o sector não apenas como actividade complementar, mas como instrumento estruturante de geração de divisas, criação de emprego e equilíbrio territorial.

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Luanda

Foto: Macao News


A orientação consta do relatório Tourism Doing Business – Investing in Angola, publicado em 2026 pela UN Tourism (Organização Mundial do Turismo das Nações Unidas), em parceria com o Ministério do Turismo, a AIPEX, o Instituto Nacional de Estatística e o Ministério das Finanças. O documento funciona como guia de investimento e como enquadramento estratégico da política pública para o sector.[1]


Na introdução, o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, sublinha a ambição de longo prazo: “O Executivo angolano pretende transformar o turismo num sector estratégico para reduzir a dependência das receitas do petróleo, promover um desenvolvimento territorial equilibrado e gerar emprego para os jovens.” A referência à Estratégia Angola 2050 coloca o turismo no centro de uma visão de transformação estrutural da economia.


O enquadramento surge num momento em que o país consolida um processo de reformas orientadas para a estabilidade macroeconómica e para a diversificação produtiva. Após um crescimento real do PIB de 4,4% em 2024, a economia registou uma moderação em 2025, com expansão estimada em torno de 2%, num contexto de ajustamento do sector petrolífero. A política económica mantém, contudo, o foco na consolidação orçamental, na sustentabilidade da dívida e na expansão de sectores não extractivos.


É neste quadro que o turismo ganha relevância estratégica. O relatório classifica-o como uma “exportação invisível”, capaz de gerar receitas externas de forma menos exposta à volatilidade das matérias-primas e com maior intensidade de emprego. Em 2023, o sector representou 4,4% do PIB, acima da média de 3,3% registada na década anterior. Do lado externo, os serviços de viagens corresponderam a cerca de 30% das exportações totais de serviços em 2024, evidenciando um reforço progressivo do seu peso na balança de pagamentos.


Os dados mais recentes confirmam a recuperação do sector após o período pandémico. As chegadas internacionais atingiram 223.140 visitantes em 2025, representando um crescimento anual de 28% e superando os níveis de 2019. O turismo de negócios mantém-se dominante, reflectindo a importância de Luanda como centro empresarial e logístico, mas o segmento de lazer apresenta expansão gradual, beneficiando da diversificação de produtos e destinos.

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Os principais mercados emissores para Angola concentram-se na África Austral e Central, com destaque para Namíbia, África do Sul e República Democrática do Congo, seguidos por Portugal enquanto principal mercado europeu. Brasil, China e Estados Unidos surgem igualmente como mercados relevantes, sobretudo nos segmentos empresarial e institucional.

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Turistas em Angola

Foto: Ministério do Turismo de Angola (Mintur)


A taxa média de ocupação hoteleira alcançou 72,6% em 2024, significativamente acima dos 54,8% registados em 2019. A capacidade instalada totaliza 1.428 unidades de alojamento, num processo de consolidação que combina renovação de activos existentes com entrada de marcas internacionais. O relatório destaca a presença e expansão de operadores como IHG, Marriott e Hilton, bem como o envolvimento do Fundo Soberano de Angola (FSDEA) em projectos estruturantes, sinalizando a crescente bancabilidade do sector.


A conectividade surge como um dos vectores centrais da estratégia. A entrada em funcionamento do Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, em Luanda, a certificação internacional do aeroporto da Catumbela e os investimentos associados ao Corredor do Lobito são apresentados como infraestruturas catalisadoras. Ao reduzir tempos de viagem e melhorar a integração regional, estas intervenções reforçam a viabilidade de circuitos multidestino e a atracção de mercados de longo curso.


Segundo o Ministro do Turismo, Márcio de Jesus Lopes Daniel, Angola vive “um momento crucial da sua história económica”, com reformas estruturais orientadas para a diversificação e para a captação de investimento privado. O ministro destaca que o país dispõe de “cerca de 1.650 quilómetros de costa atlântica, parques nacionais exuberantes, quedas de água icónicas e um património cultural multifacetado”, activos que justificam investimentos estratégicos e de longo prazo.

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Deserto do Namibe

Foto: Rádio Nacional de Angola (RNA)


A estratégia assenta num modelo territorial estruturado através dos Polos de Desenvolvimento Turístico (PDT), concebidos como destinos integrados e planeados, e não como projectos isolados. Estes polos combinam hotelaria, marinas, equipamentos de lazer, componentes residenciais e infraestrutura pública, enquadrados por planos urbanos sectoriais que conferem previsibilidade regulatória e coerência espacial.

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Nascentes do Okavango

Foto: Shutterstock


O país organiza a sua oferta em oito grandes regiões turísticas, que vão da área metropolitana de Luanda às terras altas centrais, do deserto do Namibe às nascentes do Okavango, passando pelo património histórico da M’banza Kongo, classificado como Património Mundial da UNESCO. Esta diversificação geográfica permite estruturar um portefólio multiproduto — urbano, cultural, natureza, aventura, ecoturismo e MICE — reduzindo concentração e ampliando o potencial de captação de diferentes segmentos de mercado.

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M´banza Kong

Foto: UNESCO


A política pública integra ainda instrumentos fiscais e financeiros destinados a reduzir risco e incentivar capital privado. Ao abrigo da Lei do Investimento Privado, o turismo é classificado como sector prioritário, podendo beneficiar de reduções significativas do imposto industrial por períodos alargados, isenções em matéria de transmissão de propriedade para projectos específicos e benefícios aduaneiros na importação de equipamentos.


Paralelamente, o Plano Nacional de Desenvolvimento do Turismo (PLANATUR) mobiliza recursos para infraestrutura de acesso, energia, água e telecomunicações em zonas de interesse turístico. O modelo assenta numa lógica de de-risking público, em que o Estado assume investimentos estruturais para criar condições de entrada mais favoráveis ao sector privado.


Em Janeiro de 2026, o Presidente da República autorizou um investimento superior a 500 milhões de dólares destinado à criação de infraestrutura básica — estradas, energia, comunicações e saneamento — nas zonas de desenvolvimento turístico. A medida permite que o capital privado concentre os seus recursos na construção e operação de empreendimentos turísticos, reduzindo risco de execução e aumentando a previsibilidade financeira dos projectos.


O documento sublinha ainda a importância das parcerias público-privadas e do recurso a instrumentos de blended finance, com envolvimento de instituições financeiras internacionais.


A participação da International Finance Corporation (IFC) em financiamento hoteleiro é apresentada como exemplo de alinhamento entre capital privado e instituições multilaterais.


No plano institucional, Angola reforçou medidas de facilitação administrativa, incluindo simplificação de licenciamento, digitalização de procedimentos e criação de janelas únicas de investimento. A reforma do regime de vistos, com isenção para cidadãos de 98 países, constitui outro elemento central da estratégia de abertura e internacionalização.


O relatório dedica também atenção ao capital humano e à inovação. Nos últimos cinco anos, mais de 12.500 estudantes frequentaram escolas secundárias de hotelaria e turismo, reforçando a base técnica do sector. Em paralelo, o ecossistema digital tem vindo a expandir-se, com plataformas de pagamentos, mobilidade e serviços que reduzem fricções operacionais e elevam padrões de serviço.


A análise do investimento directo estrangeiro (IDE) evidencia uma inflexão positiva em 2025, com retorno a fluxos líquidos positivos após vários anos marcados por ajustamentos no sector petrolífero. Embora o turismo represente ainda uma parcela relativamente modesta do IDE acumulado, o seu peso tende a aumentar no contexto da diversificação económica.


Esta dinâmica interna deve também ser lida à luz das tendências internacionais de investimento turístico, que ajudam a contextualizar o posicionamento de Angola no ciclo actual.


Entre 2021 e 2025, o turismo registou a nível global 1.687 projectos greenfield anunciados, representando aproximadamente 62 mil milhões de dólares em investimento planeado. Embora o ritmo tenha sido desigual, com maior selectividade no financiamento de projectos de grande escala, a amplitude geográfica e sectorial dos compromissos empresariais demonstra que os operadores continuam a posicionar-se em mercados onde a procura está a aprofundar-se e as condições operacionais mostram melhoria estrutural. Em África, foram contabilizados 78 projectos, com cerca de 2,9 mil milhões de dólares em investimento previsto e mais de 7.000 empregos directos estimados, confirmando que o continente mantém atractividade, sobretudo em cidades-porta e corredores emergentes, onde a hotelaria é frequentemente integrada em projectos de uso misto para garantir utilização anual estável.


No caso angolano, a evolução recente reflecte essa tendência de maturação. O mercado passou de uma oferta predominantemente associada aos serviços petrolíferos para uma hotelaria de marca internacional com maior profundidade operacional e diversidade geográfica. A entrada e expansão de operadores como IHG, Marriott, Hilton e Sheraton — com envolvimento directo do Fundo Soberano de Angola em estruturas de co-investimento — sinaliza um modelo de financiamento mais sofisticado e partilhado. A participação de instituições como a IFC, através de financiamento estruturado a projectos específicos, contribui para reduzir risco de execução e alongar maturidades, enquanto o reforço do ecossistema de serviços, incluindo operadores internacionais de gestão de viagens, amplia a capacidade de distribuição e alimentação da procura corporativa. Em conjunto, estes movimentos indicam uma transição do sector para padrões mais robustos de governança, financiamento e integração internacional.


O enquadramento macroeconómico continua exigente, mas o país mantém trajectória de consolidação e estabilidade, com políticas orientadas para o controlo da inflação, a sustentabilidade da dívida e o fortalecimento do sector não petrolífero. Neste cenário, o turismo apresenta-se como sector com capacidade de gerar valor acrescentado distribuído ao longo de cadeias produtivas que incluem agricultura, pescas, construção, transportes e serviços.


Ao longo do relatório, a mensagem é consistente: Angola pretende evoluir de destino emergente subexplorado para mercado turístico estruturado, com planeamento territorial, instrumentos fiscais claros, infraestrutura moderna e integração regional.


Na conclusão do documento, sublinha-se que o país dispõe de uma combinação rara de diversidade geográfica, património cultural e potencial natural ainda por desenvolver, criando condições para investimentos que definam padrões de qualidade e consolidem a sua posição na África Austral e Central.

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Quedas de Água de Kalandula

Foto: Shutterstock


O Presidente João Lourenço reafirma essa ambição ao convidar investidores nacionais e estrangeiros a posicionarem-se “na linha da frente de um projecto de desenvolvimento turístico que se revela rentável e sustentável no longo prazo”. O Ministro do Turismo acrescenta que Angola está “aberta, pronta e empenhada em construir um futuro próspero e sustentável para o sector”.


A estratégia delineada no relatório aponta para um sector que deixa de ser complementar e passa a integrar o núcleo da política económica de diversificação. Ao conjugar estabilidade institucional, investimento público estruturante, abertura ao capital internacional e valorização dos seus activos naturais e culturais, Angola afirma-se como destino de investimento com horizonte estratégico claro.

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Ministro do Turismo Márcio de Jesus Lopes Daniel na ITB 2026

Foto: Mintur


Num contexto global em que o turismo assume papel crescente na criação de emprego, na promoção da coesão territorial e na geração de divisas, o país posiciona-se para transformar potencial em execução. Com infraestrutura em expansão, enquadramento regulatório reforçado e um modelo territorial estruturado, o sector turístico angolano entra numa nova fase.


Angola prepara-se, assim, para escrever um capítulo decisivo da sua diversificação económica — ancorado num sector que combina competitividade, sustentabilidade e capacidade de mobilização de capital de longo prazo. O momento é de consolidação, de afirmação internacional e de confiança no futuro. O turismo surge como um dos motores dessa trajectória.



Fonte

[1] UN Tourism, Tourism Doing Business – Investing in Angola, 2026.