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Brasil e China elevam cooperação espacial a novo patamar com satélite geoestacionário e agenda estratégica de longo prazo
Tempo de liberação:2026-08-25
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Representação artística de satélite em órbita terrestre.

Foto: Cortesia de “Em Órbita”


O anúncio do desenvolvimento conjunto do satélite CBERS-5, formalizado em Julho de 2025 durante a Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro, marca o ponto mais ambicioso da cooperação espacial entre Brasil e China desde a criação do programa sino-brasileiro em 1988.


Pela primeira vez, o Brasil participará no desenvolvimento de um satélite geoestacionário — tecnologia dominada por menos de dez países — entrando num grupo restrito com capacidade própria de geração de dados meteorológicos e ambientais a partir de órbita fixa sobre o território nacional [1].


O CBERS-5 será um satélite meteorológico e ambiental posicionado em órbita geoestacionária sobre o Brasil. Ao contrário dos satélites anteriores da série, que operam em órbita baixa e passam periodicamente sobre o território, o novo modelo permitirá observação contínua da mesma área da superfície terrestre. Isso representa maior precisão na previsão do tempo, monitorização de eventos extremos e modelagem climática — elementos centrais para o agronegócio, a geração de energia, a gestão de recursos hídricos e a prevenção de desastres naturais.

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Os Presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping num encontro bilateral em Pequim que consolidou a cooperação estratégica Brasil–China, incluindo o aprofundamento das parcerias no sector espacial.

Foto: Xinhua


Durante visita de Estado a Pequim, em Maio de 2025, Lula havia definido a relação bilateral como estruturante para o futuro do desenvolvimento brasileiro: “Our relationship with China is very strategic” (A nossa relação com a China é muito estratégica), declarou, acrescentando que os dois países precisam “learn to work together so that this relationship can bear the fruits we need” (aprender a trabalhar juntos para que esta relação produza os frutos de que necessitamos) [2].


Na ocasião, foram assinados 20 acordos e adoptados 17 documentos adicionais destinados a fortalecer a cooperação ao longo dos próximos 50 anos, incluindo instrumentos específicos de partilha de dados espaciais e transferência de tecnologia.


Pela primeira vez no âmbito do programa CBERS, o acordo estabelece formalmente mecanismos estruturados de transferência tecnológica como parte integrante do desenvolvimento conjunto [1][3].


O CBERS-5 não é apenas mais um satélite: simboliza a transição do Brasil para um patamar superior de autonomia tecnológica no domínio espacial.


Um satélite geoestacionário opera a aproximadamente 36.000 quilómetros de altitude, mantendo-se sincronizado com a rotação da Terra e permanecendo aparentemente fixo sobre um mesmo ponto da superfície. Essa característica permite monitorização contínua, diferentemente dos satélites de órbita baixa — como os anteriores CBERS — que orbitam a cerca de 700 a 800 quilómetros de altitude e revisitam a mesma área apenas em intervalos periódicos.


No caso do CBERS-5, a capacidade de observação contínua deverá fortalecer os sistemas brasileiros de previsão meteorológica, modelagem climática e monitorização de eventos extremos, reduzindo dependência de dados externos.


Evolução técnica: do sensoriamento remoto ao radar avançado


Enquanto o CBERS-5 projecta o Brasil na era geoestacionária, o CBERS-6 consolida a evolução tecnológica do programa de observação terrestre.


Em Setembro de 2025, foi realizada em Pequim a Mission Critical Design Review (MCDR) do CBERS-6, nas instalações da Academia Chinesa de Tecnologia Espacial (CAST), com participação do INPE e da Agência Espacial Brasileira [4]. A aprovação técnica autorizou o avanço para as fases de fabricação e integração.


O CBERS-6 será o primeiro da série equipado com radar de abertura sintética (SAR) em banda X, tecnologia que permite observação mesmo sob cobertura de nuvens ou durante a noite — condição crucial para a monitorização da Amazónia e de regiões tropicais com elevada nebulosidade. A plataforma baseia-se na Plataforma Multimissão (PMM), modernizada pelo INPE, evidenciando conteúdo tecnológico brasileiro relevante no projecto.


“O CBERS-6 representa um salto tecnológico para o Brasil. Ele amplia nossa capacidade de observar o território em qualquer condição meteorológica e reforça a presença do país em uma área crítica para a soberania e o desenvolvimento sustentável”, afirmou Felipe Ferreira Fraga, coordenador de Satélites e Aplicações da AEB [4].


A evolução tecnológica da série demonstra uma transição gradual: de câmaras ópticas convencionais para sensores de alta resolução e, agora, para radares capazes de operar independentemente das condições atmosféricas.


O radar de abertura sintética (SAR) difere dos sensores ópticos tradicionais por utilizar micro-ondas em vez de luz visível. Isso permite aquisição de imagens independentemente das condições meteorológicas ou da luminosidade, tornando possível observar áreas sob cobertura de nuvens densas — situação frequente na Amazónia.


Além da monitorização ambiental, sensores SAR podem ser utilizados para a detecção de alterações na cobertura florestal; monitorização agrícola; observação de infraestrutura e apoio à defesa civil em caso de deslizamentos ou cheias.


A introdução dessa tecnologia no âmbito do CBERS representa diversificação significativa das capacidades do programa.


Nova etapa: conectividade digital e ciência do espaço profundo


A cooperação espacial sino-brasileira deixou de estar circunscrita à observação da Terra.


Em Dezembro de 2025, foi anunciada a ampliação da parceria para dois eixos estratégicos centrais do século XXI [5].


O primeiro envolve conectividade digital. A empresa chinesa SpaceSail iniciará, no primeiro semestre de 2026, serviços de internet via satélite de órbita baixa em regiões remotas do Brasil, com base na constelação Qianfan, que já ultrapassa 100 satélites em órbita. Memorando firmado com a Telebras prevê a utilização da infraestrutura para conectar escolas, hospitais e serviços públicos em áreas historicamente excluídas da rede terrestre.


O segundo eixo é científico. A China Electronics Technology Group Corporation (CETC) firmou acordo com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) para criação do Laboratório Conjunto China–Brasil de Tecnologia de Radioastronomia [5]. O laboratório vai dedicar-se à observação astronómica, exploração do espaço profundo e formação de recursos humanos especializados.


A parceria deixa, assim, de ser exclusivamente voltada à monitorização ambiental e passa a incluir ciência espacial avançada e infraestrutura digital estratégica.


1988: o início em contexto geopolítico adverso


No final da década de 1980, Brasil e China identificaram interesses convergentes no desenvolvimento de capacidades próprias de sensoriamento remoto, numa conjuntura internacional marcada por rápidas transformações geopolíticas e tecnológicas. A assinatura do protocolo de 1988 estabeleceu uma parceria que, ao longo das décadas seguintes, evoluiu de projecto técnico para eixo estruturante da cooperação bilateral.

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Em Julho de 1988, foi assinado o Protocolo sobre Aprovação de Pesquisa e Produção de Satélite de Recursos da Terra, dando origem ao Programa CBERS [6].


Desde então, foram lançados:

• CBERS-1 — 14 de Outubro de 1999

• CBERS-2 — 21 de Outubro de 2003

• CBERS-2B — 19 de Setembro de 2007

• CBERS-3 — 9 de Dezembro de 2013 (falha no lançamento)

• CBERS-4 — 7 de Dezembro de 2014

• CBERS-4A — aprovado em protocolo complementar em 2016 [6]


Ao longo de quase quatro décadas, memorandos, protocolos complementares e planos decenais estruturaram a continuidade da cooperação, incluindo o Plano Decenal Sino-Brasileiro de Cooperação Espacial 2012-2021 [6].


O programa CBERS tornou-se referência global de cooperação tecnológica Sul–Sul, frequentemente citado como modelo de partilha de conhecimento entre países em desenvolvimento.


Todos os satélites da série CBERS foram lançados a partir do Centro de Lançamento de Satélites de Taiyuan, localizado na província de Shanxi, na China. A base é especializada em lançamentos para órbitas polares e heliossíncronas, utilizadas para satélites de observação da Terra.


Os veículos utilizados pertencem à família Longa Marcha (Chang Zheng), nomeadamente o foguete Longa Marcha 4B.


A utilização sistemática da infraestrutura chinesa de lançamento reflecte a divisão de responsabilidades estabelecida no âmbito do programa: enquanto Brasil e China partilham o desenvolvimento tecnológico dos satélites, a China tem sido responsável pelos serviços de lançamento orbital.


Programa Espacial Brasileiro: ambição e limites

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O programa espacial brasileiro mobiliza cerca de 2.000 a 3.000 profissionais em instituições como o INPE, a AEB, o DCTA e empresas da cadeia espacial nacional.

Foto: Cortesia da AEB:


Em Abril de 2026, o presidente da Agência Espacial Brasileira, Marco António Chamon, destacou que o Programa Espacial Brasileiro pode ampliar a presença internacional do país [7]. Segundo ele, a liderança brasileira em temas ambientais e mudanças climáticas reforça a importância estratégica do setor espacial.


“O protagonismo do país em meio ambiente e mudanças climáticas torna o sector espacial importante para manter esse papel”, afirmou.


Chamon sublinhou ainda o potencial da base de Alcântara, cuja proximidade à linha do Equador representa vantagem competitiva para lançamentos orbitais, e mencionou a participação brasileira na missão Artemis como sinal de inserção internacional.


A referência à missão Artemis diz respeito à adesão do Brasil aos Artemis Accords, formalizada em 15 de junho de 2021, quando o país se tornou o primeiro da América do Sul a integrar o conjunto de nações que apoiam os princípios de cooperação para a exploração civil da Lua, de Marte e de outros corpos celestes.


Embora o Brasil não seja um dos principais parceiros industriais do programa liderado pela NASA, participa em grupos técnicos e discute contribuições científicas específicas, incluindo projectos como o satélite lunar SelenITA e iniciativas de agricultura espacial em cooperação com instituições nacionais. A menção à Artemis insere-se, assim, numa estratégia mais ampla de posicionamento internacional do Programa Espacial Brasileiro.


Contudo, os recursos destinados ao sector permanecem modestos. Em 2023, o Brasil investiu cerca de 47 milhões de dólares no programa espacial, equivalente a 0,002% do PIB [8]. A comparação com os investimentos chineses evidencia forte assimetria. Ainda assim, a cooperação bilateral tem permitido ao Brasil aceder a tecnologias críticas, consolidar competências industriais e reforçar sua soberania em dados ambientais.


O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no estado do Maranhão, é considerado um dos activos estratégicos do Programa Espacial Brasileiro. Localizado a cerca de dois graus da linha do Equador, oferece vantagens energéticas significativas para lançamentos orbitais, permitindo economia de combustível e maior capacidade de carga útil.


Embora o Brasil ainda não tenha realizado lançamentos orbitais próprios com sucesso a partir de Alcântara, a base tem sido utilizada para lançamentos suborbitais e encontra-se aberta a parcerias internacionais. A consolidação de acordos comerciais e tecnológicos poderá transformar Alcântara num polo relevante na economia espacial global.


Um eixo estratégico para os próximos cinquenta anos

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A evolução da cooperação sino-brasileira mostra uma transformação gradual: de um projecto técnico de sensoriamento remoto para um eixo estratégico de desenvolvimento nacional e de inserção internacional.


Com o CBERS-5, o Brasil entra no grupo dos países com capacidade geoestacionária própria.


Com o CBERS-6, amplia sua capacidade de monitorização independente.


Com a internet via satélite e a radioastronomia, integra conectividade digital e ciência de fronteira.


Quase quatro décadas após 1988, a parceria demonstra que cooperação tecnológica entre países emergentes pode evoluir para um instrumento de soberania, modernização e projeção global.


E, como afirmou o Presidente Lula da Silva em Pequim, trata-se de uma relação pensada não apenas para o presente, mas para as próximas cinco décadas.



Fontes

[1] Agência Espacial Brasileira (AEB) / Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação – Anúncio do desenvolvimento do satélite CBERS 5 durante a Cúpula do BRICS, Julho de 2025.

[2] Declarações do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante visita de Estado a Pequim, Maio de 2025.

[3] Documentos bilaterais Brasil–China relativos à transferência tecnológica no âmbito do CBERS 5.

[4] Agência Espacial Brasileira (AEB) – Mission Critical Design Review (MCDR) do CBERS 6 realizada em Pequim, Setembro de 2025.

[5] Comunicações oficiais sobre ampliação da cooperação espacial China–Brasil (SpaceSail, Telebras e criação do Laboratório Conjunto China–Brasil de Radioastronomia), Dezembro de 2025.

[6] Agência Espacial Brasileira (AEB) – Histórico do Programa CBERS e protocolos complementares sino-brasileiros.

[7] Declarações do Presidente da Agência Espacial Brasileira, Marco António Chamon, na Câmara dos Deputados, Abril de 2026.

[8] Dados orçamentais do Programa Espacial Brasileiro – execução orçamental de 2023.