Durante muitos anos, qualquer análise sobre a economia da Guiné-Bissau começava quase inevitavelmente pelo mesmo diagnóstico: défice de infraestruturas, dependência da castanha de caju, reduzida industrialização e limitações graves no fornecimento de energia. Em 2026, porém, emerge uma leitura diferente: o sector energético guineense começa a passar de uma lógica de carência estrutural para uma fase de planeamento, investimento, regulação e oportunidade.
A formulação mais clara desta mudança surge na Actualização Económica da Guiné-Bissau 2026, publicada pelo Banco Mundial. O relatório assinala que, após a interligação hidroeléctrica da Organização para a Valorização do Rio Gâmbia (OMVG), “a electricidade deixou de ser o principal problema para as empresas formais”, sendo agora os impostos, o acesso ao financiamento e a incerteza institucional os obstáculos mais críticos ao crescimento empresarial[1]. A leitura não é a de que todos os problemas de acesso, fiabilidade ou custo estejam resolvidos, mas sim a de uma alteração qualitativa: a energia, antes vista sobretudo como bloqueio, começa hoje a ser encarada como plataforma de transformação económica.

Hidroeléctrica da OMVG.
Foto: GAUFF
Essa transformação ocorre num contexto macroeconómico exigente, mas com sinais positivos. Segundo o Banco Mundial, o PIB real cresceu 5,8% em 2025, a inflação caiu para 0,9% e o défice orçamental reduziu-se para 6,5% do PIB[1]. A previsão de crescimento para 2026, de 4,8%, confirma uma trajectória de expansão. Também a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP )identifica a energia, as infraestruturas, a agricultura e o turismo como sectores de oportunidade, associados aos recursos naturais, à localização estratégica e à integração regional[2].

Mohamadú Saido Baldé, Director-Geral da Energia da Guiné-Bissau.
Foto: FB
A novidade está no facto de o sector energético começar a ser tratado não apenas como uma área técnica, mas como um eixo de política económica. Em Abril de 2026, Mohamadú Saido Baldé, Director-Geral da Energia da Guiné-Bissau, afirmou que o país se encontra “num momento decisivo do seu percurso de desenvolvimento”, depois de cinco anos de estabilização do fornecimento de electricidade pela EAGB — Electricidade e Águas da Guiné-Bissau, a empresa pública nacional de electricidade e água, com o número de interrupções por dia a cair para 0,9 em 2025[3]. Esta melhoria abriu espaço ao surgimento de pequenas e médias empresas, sobretudo em Bissau, criando emprego para jovens e mulheres. A energia surge, assim, como factor de competitividade, de inclusão e de melhoria das condições de vida.
É neste quadro que deve ser entendida a Política Nacional de Energia (PNE) 2025–2035, aprovada em Conselho de Ministros a 28 de Julho de 2026. Este instrumento dá ao país uma visão estruturada de longo prazo para o sector energético, orientada para a sustentabilidade, a inclusão, a resiliência e o acesso universal[4]. A política define orientações para a diversificação da matriz energética, o reforço da segurança energética e o aumento da integração das energias renováveis.

Diálogo Energético de Alto Nível, realizado em Abril de 2026, em Bissau.
Foto: organização
A elaboração da PNE foi uma iniciativa do Ministério da Energia, com apoio da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e financiamento do Banco Mundial, através do Projecto Regional de Acesso à Electricidade Fora da Rede — ROGEAP. Coordenado pela Direcção-Geral da Energia, o processo envolveu consultas multi-sectoriais e um Diálogo Energético de Alto Nível, realizado entre 7 e 10 de Abril de 2026, com instituições públicas, sector privado, sociedade civil e parceiros de desenvolvimento[3].
A PNE assenta em cinco eixos estratégicos: reforço institucional; infraestruturas e mercado; acesso universal; sustentabilidade e segurança energética; e empreendedorismo e inovação[3]. Estes eixos respondem a constrangimentos como a fraca coordenação institucional, limitações de capacidade técnica, acesso desigual à electricidade e défices de fiscalização e monitorização. A ambição é garantir um sistema energético moderno, fiável, equitativo e financeiramente sustentável.
A dimensão institucional é central. A melhoria da energia não depende apenas de centrais, redes ou linhas de transporte, mas também de regras claras, capacidade regulatória, planeamento público, transparência tarifária e confiança dos investidores. O portal oficial do Ministério da Energia reflecte esta preocupação ao apresentar como áreas de actuação a electrificação e acesso universal, energias renováveis, regulação e tarifas, eficiência energética, interligação e redes, e transição energética[5].
No plano dos investimentos, a informação pública disponível permanece dispersa, mas permite identificar várias linhas de intervenção: rede nacional, mini-redes rurais, novas ligações, energia solar, sistemas híbridos, subestações, linhas de transporte e modernização da rede[5]. Entre os comunicados oficiais recentes constam a mini-rede híbrida em Bubaque, a linha de média tensão Gabú–Bafatá, um acordo com o Banco Africano de Desenvolvimento para electrificação rural, no valor de 12 milhões de euros, e a formação de 40 técnicos de manutenção de redes[5]. Os parceiros incluem o Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento, a CEDEAO, o Banco Europeu de Investimento, o Banco Oeste Africano de Desenvolvimento, o Banco Islâmico de Desenvolvimento e a Agência Francesa de Desenvolvimento[5][6][9]. Não existe uma estimativa pública única do investimento público e privado no sector, mas os valores conhecidos dão escala à transformação: cerca de 700 milhões de dólares previstos no plano de investimento em energia sustentável até 2030 e 35 milhões de dólares aprovados pelo Banco Mundial para energia solar e acesso à electricidade[8][10].

Linha eléctrica Gabu-Bafatá.
Foto: Banco Africano de Desenvolvimento
A estes investimentos soma-se a integração regional. O projecto da OMVG tem desempenhado um papel decisivo ao permitir o acesso a energia hidroeléctrica regional. Como assinala o advogado Rufino Lopes, da J&L Advogados, a principal fonte renovável actualmente utilizada pela Guiné-Bissau no sector eléctrico é a hídrica, adquirida no quadro da OMVG, que envolve Guiné, Senegal, Gâmbia e Guiné-Bissau[7]. Esta integração melhora a segurança de abastecimento, mas coloca também a questão da soberania energética, que passa pela combinação entre interligação regional, produção nacional renovável, mini-redes e capacidade regulatória.

Parque solar de Bolama.
Foto: Prospectiva
As energias renováveis ocupam lugar central nesta nova etapa. A Guiné-Bissau dispõe de elevado potencial solar. Rufino Lopes recorda que, entre 2012 e 2014, foi desenvolvido o primeiro parque piloto fotovoltaico híbrido em mini-rede, e que a capacidade agregada destes projectos atingia 1,2 MW com a construção do parque solar de Bolama[7]. O mesmo autor refere estudos actualizados em 2023 sobre a viabilidade da barragem de Saltinho, com capacidade estimada em 23 MW[7]. Estes dados mostram que existem bases técnicas para uma matriz mais diversificada.

O objectivo político é mais ambicioso. A Política para Energias Renováveis produzida em 2025 estabelece uma meta de participação das renováveis na ordem dos 60% do total nacional das fontes de produção de energia[7]. Por sua vez, a Câmara Africana de Energia indica que as metas nacionais incluem aumentar a taxa de electrificação de cerca de 45% para 80% até 2030, no quadro de um plano de investimento em energia sustentável estimado em cerca de 700 milhões de dólares[8]. Estes números dão escala à transformação em curso: a Guiné-Bissau procura construir um sistema energético capaz de sustentar uma economia mais produtiva, menos dependente da importação de combustíveis e mais preparada para atrair investimento.
É também nesta perspectiva que deve ser lida a nomeação de Julio Mamadù Baldé como Ministro dos Recursos Naturais, anunciada em Abril de 2026. Engenheiro de recursos hídricos, Baldé traz quase duas décadas de experiência na gestão de activos offshore partilhados entre a Guiné-Bissau e o Senegal[8]. A Câmara Africana de Energia interpretou a nomeação como sinal de reforço técnico no sector extractivo e de posicionamento do país na bacia energética da África Ocidental conhecida como MSGBC, que integra Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Guiné-Bissau e Guiné-Conacri[8].
Esta dimensão extractiva não deve ser vista como contraditória com a transição energética. Para um país de baixo rendimento, a questão central é gerir recursos naturais de forma transparente e estratégica. A entrada da Chevron nos Blocos 5B e 6B no final de 2025, os trabalhos sísmicos em águas profundas, a actividade da Apus Energy nas licenças de Sinapa e Esperança e o poço Atum-1X perfurado em 2024 mostram que o interesse no potencial offshore guineense está a crescer[8]. Se bem regulados, estes desenvolvimentos poderão contribuir para receitas públicas, investimento, emprego e diversificação económica.

A Apus Energy FZCO explora petróleo na Guiné-Bissau.
Foto: Apus Energy
O desafio está em evitar uma falsa escolha entre energia e clima. A Guiné-Bissau é vulnerável às alterações climáticas e, ao mesmo tempo, precisa de energia para se desenvolver[7]. A transição energética deve, por isso, ser uma estratégia realista: mais renováveis, mais eficiência, melhor rede, menor dependência de combustíveis importados, integração regional e aproveitamento prudente dos recursos naturais.
A relação entre energia e sector privado é particularmente importante. O Banco Mundial identifica um paradoxo: a proporção de empresas que investem em activos fixos aumentou de 45,1% em 2006 para 61,2% em 2025, mas a produtividade do trabalho caiu de +6,2% para -6,8%[1]. A melhoria do fornecimento eléctrico pode ajudar a quebrar este bloqueio, desde que acompanhada por financiamento, formação, previsibilidade institucional, modernização alfandegária e conectividade digital.
Para Portugal, Macau e o espaço lusófono, esta trajectória abre uma oportunidade clara de cooperação. A Guiné-Bissau precisa de capital, tecnologia, capacitação técnica, soluções descentralizadas, serviços de engenharia, formação profissional, sistemas digitais de gestão de rede, eficiência energética e modelos de financiamento adaptados a PME e comunidades rurais. A AICEP identifica a energia e as infraestruturas como sectores de oportunidade[2].

A história recente da energia na Guiné-Bissau é, portanto, menos pessimista do que muitas vezes se supõe. O país enfrenta constrangimentos relevantes, da dívida elevada e receitas fiscais reduzidas à dependência da castanha de caju, ao fraco acesso ao crédito e à vulnerabilidade climática. Mas o sector energético está a deixar de ser apenas reflexo dessas limitações. A estabilização do fornecimento em Bissau, a interligação regional, a aprovação da PNE, os projectos de mini-redes e electrificação rural, o reforço institucional, o apoio de parceiros internacionais e o interesse crescente no potencial extractivo compõem uma agenda mais animadora.
A frase do Banco Mundial — a electricidade já não é o principal problema para as empresas formais — deve ser entendida como ponto de partida, não como ponto de chegada. Ela indica que a Guiné-Bissau superou uma barreira histórica e pode agora concentrar-se na fase seguinte: levar energia fiável a todo o território, aumentar as renováveis, reduzir perdas, atrair investimento, formar técnicos, regular melhor o mercado e transformar electricidade em produtividade.
Num país jovem, com recursos naturais relevantes, localização estratégica e forte necessidade de desenvolvimento, a energia pode tornar-se o eixo de uma nova ambição nacional. A Guiné-Bissau não parte de uma situação fácil, mas parte hoje de uma base mais sólida do que no passado recente. Se a visão da PNE 2025–2035 for acompanhada por execução, financiamento e boa governação, o sector energético poderá transformar-se num pilar de desenvolvimento sustentável e inclusivo.
Fontes
[1] Banco Mundial, “Actualização Económica da Guiné-Bissau 2026: Vias para Desbloquear o Crescimento do Setor Privado Impulsionado pela Produtividade”, 24 de Junho de 2026.
[2] AICEP — Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, “Guiné-Bissau”, Perfil de Mercado, Fevereiro de 2026.
[3] Mohamadú Saido Baldé, Director-Geral da Energia da Guiné-Bissau, “A Política Nacional de Energia da Guiné-Bissau responde à ambição de transformar o sector energético num pilar de desenvolvimento sustentável e inclusivo”, ALER, 30 de Abril de 2026.
[4] ALER — Associação Lusófona de Energias Renováveis, “Guiné-Bissau aprova Política Nacional de Energia em Conselho de Ministros”, 28 de Julho de 2026.
[5] Ministério da Energia da Guiné-Bissau, Portal Oficial do Ministério da Energia, consultado com base nos conteúdos disponíveis em 2026.
[6] Ministério da Energia da Guiné-Bissau, “Publicado relatório anual do sector energético 2025”, 20 de Abril de 2026.
[7] Rufino Lopes, “Transição energética: a Guiné-Bissau perante uma encruzilhada complexa”, Jornal Económico, 17 de Abril de 2026.
[8] African Energy Chamber, “A Guiné-Bissau nomeia Julio Baldé como Ministro dos Recursos Naturais, num momento em que se intensificam os esforços no setor de exploração”, 10 de Abril de 2026.
[9] Banco Mundial, “Connecting West Africa through Regional Power Integration and Expanded Electricity Access”, 11 de Maio de 2026.
[10] Banco Mundial, “Banco Mundial investe em energia solar para expandir acesso à electricidade na Guiné-Bissau”, 6 de Junho de 2024.


