São Tomé e Príncipe, um dos nove países de língua portuguesa que integram o Fórum de Macau, volta a colocar o cacau no centro da sua estratégia de desenvolvimento. Dois séculos após a introdução das primeiras plantas provenientes do Brasil, o arquipélago consolida uma nova etapa da fileira, assente na produção biológica, na valorização local, na transformação interna e no acesso qualificado aos mercados internacionais.

Foto: cortesia de Scott Ramsay
PAFAE e a continuidade da cooperação
No final de Junho de 2025 terminou oficialmente a primeira fase do Projecto de Apoio às Fileiras Agrícolas de Exportação (PAFAE), cofinanciado pela União Europeia e pela Cooperação Portuguesa, num montante global de 4,8 milhões de euros, e executado em parceria com o Ministério da Agricultura são-tomense[1].
Durante quatro anos, o projecto apoiou a renovação de 108 hectares de cacauzal, 36 hectares de cafezal e mais de dois hectares de pimenta, capacitou mais de 1.700 produtores e reforçou infraestruturas agrícolas e organizativas, incluindo associações e cooperativas. Foram igualmente produzidos manuais técnicos agroecológicos e o primeiro guia sensorial do cacau de São Tomé e Príncipe[1][2].
Na cerimónia de encerramento, o Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pesca, Nilton Garrido, sublinhou que o projecto representou “um avanço estruturante para o sector agrícola nacional”, defendendo a necessidade de uma segunda fase — PAFAE II — que permita consolidar os resultados alcançados. O governante destacou ainda a importância de um mecanismo de transição com apoio da Cooperação Portuguesa, assegurando continuidade técnica e institucional[1].

Foto: Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pesca, Nilton Garrido
O cacau permaneceu no centro destes esforços, com prioridade à melhoria das práticas agrícolas, da fermentação, da secagem e da organização cooperativa, fortalecendo a competitividade externa da produção nacional.
Da introdução atlântica à afirmação internacional
A cultura do cacau integra-se na história atlântica do espaço lusófono. Introduzido no Brasil no século XVII e desenvolvido como cultura tropical de exportação, o cacau foi posteriormente transferido para São Tomé e Príncipe sob administração portuguesa[6][7]. Em 1819, registos históricos assinalam a introdução formal das primeiras plantas oriundas da Baía, no Brasil[8].
O café seguiu percurso semelhante. Desenvolvido no Brasil como produto estratégico no final do século XVIII e ao longo do século XIX, foi igualmente implantado no arquipélago, aproveitando as condições agroecológicas locais — solos vulcânicos férteis, elevada pluviosidade e clima equatorial estável[9][10].
No início do século XX, São Tomé e Príncipe destacou-se entre os maiores produtores mundiais de cacau, com níveis anuais próximos de 30 mil toneladas, projectando internacionalmente o arquipélago como território de excelência agrícola. As roças estruturaram o território e continuam a marcar a paisagem e a identidade produtiva nacional.
Após a independência, o sector atravessou um processo de reorganização estrutural, com redefinição do modelo produtivo e gradual consolidação da agricultura familiar. Actualmente, cerca de 90% da produção provém de pequenas explorações familiares[4].
Produção, emprego e relevância económica

Foto: Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO)-Eduardo Soteras
A produção anual de cacau situa-se actualmente em torno de 3.000 toneladas[3]. O sector agrícola continua a desempenhar papel estruturante na economia nacional, representando aproximadamente 20% do PIB, cerca de 80% das receitas de exportação e mais de 60% do emprego[3][4].

O cacau representa cerca de 79% das exportações nacionais, tendo como principais destinos Países Baixos, Espanha, França e Bélgica[3].
Nas regiões agrícolas centrais e do norte registam-se mais de 19.800 trabalhadores directamente envolvidos nas principais culturas permanentes, entre as quais o cacau assume posição dominante[5]. A fileira mobiliza milhares de famílias e dezenas de associações organizadas.
Cacau biológico, GIAHS e reconhecimento internacional
Desde o início do século XXI, São Tomé e Príncipe tem reforçado a aposta na produção biológica certificada.
Em 2004 foi criada a CECAB — Cooperativa de Exportação de Cacau Biológico — que reúne mais de 3.000 agricultores organizados em mais de 40 comunidades[11].
Em 2024, o sistema agroflorestal do cacau são-tomense foi reconhecido pela FAO como Globally Important Agricultural Heritage System (GIAHS), distinguindo um modelo tradicional que combina cacau da variedade Amelonado com árvores de sombra e culturas alimentares, preservando biodiversidade, solos e recursos hídricos[12].
Desde 2019, mais de 8.000 hectares de áreas agroflorestais foram restaurados com a participação de cerca de 3.500 agricultores, reforçando o posicionamento do país no segmento de cacau fino e sustentável[12].

Foto: Felchlin
A valorização interna da produção tem sido acompanhada pela consolidação de unidades de transformação “bean-to-bar” (do grão à barra de chocolate).
A Claudio Corallo foi pioneira na produção artesanal de chocolate de origem nas ilhas de São Tomé e Príncipe, apostando na fermentação controlada e na pureza varietal.
A HBD/Paciência Organic, instalada na histórica Roça Sundy, no Príncipe, integra produção biológica, transformação e turismo sustentável.
A Diogo Vaz, roça renovada e certificada em agricultura biológica, desenvolve chocolate de origem premiado internacionalmente, com presença em mercados europeus especializados.
A CECAB, além da exportação de cacau em grão para parceiros europeus do sector biológico, instalou uma unidade de transformação em Guadalupe, com capacidade estimada de cerca de 10 toneladas anuais de chocolate, destinada ao mercado interno e à exportação especializada[11].
A nova sede da CECAB, actualmente em construção na Avenida Amílcar Cabral, em São Tomé, representa um passo estruturante na consolidação institucional da cooperativa. Com três pisos e concebida para reforçar a capacidade administrativa, técnica e formativa da organização, o edifício simboliza a maturidade alcançada por uma estrutura que agrega 41 associações e milhares de produtores de cacau biológico.
Na cerimónia de lançamento da primeira pedra, o Director Executivo, António Dias, sublinhou que a sede constitui “a materialização da união, da paciência e da determinação dos nossos produtores”, destacando que a força da CECAB assenta nas comunidades agrícolas que, ao longo de duas décadas, construíram um modelo reconhecido de exportação sustentável.

Director Executivo, António Dias
Foto: CECAB
O projecto assume igualmente dimensão estratégica para o desenvolvimento rural. Para além de melhorar as condições de trabalho e os serviços prestados aos cooperantes, a nova infraestrutura permitirá reforçar a formação técnica, a organização logística e a capacidade de negociação internacional da cooperativa.
O Governo anunciou a devolução do IVA relativo ao investimento da obra, medida que contribui para acelerar a sua execução, estimada em nove meses, traduzindo o reconhecimento institucional do papel da CECAB enquanto referência nacional na valorização do cacau biológico e na promoção de uma economia associativa orientada para resultados concretos.
Estas unidades contribuem para maior retenção de valor no território, reforçando a marca de origem São Tomé e Príncipe no mercado internacional de chocolate fino.

Turismo, diversificação e posicionamento internacional
O turismo associado ao cacau constitui dimensão complementar da estratégia nacional. Roças históricas como Sundy, Água Izé e Diogo Vaz foram parcialmente reconvertidas em espaços de visitação, hotelaria e experiências interpretativas, integrando agricultura, património e gastronomia.
Com cerca de 15 mil visitantes anuais, o país dispõe de potencial de crescimento neste segmento, articulando cacau, café biológico, ecoturismo e promoção cultural.
O fortalecimento da fileira do cacau constitui oportunidade estratégica de cooperação económica e tecnológica, permitindo aprofundar parcerias no espaço dos Países de Língua Portuguesa e ampliar o acesso a novos mercados.
Perspectivas futuras
A consolidação da fileira passa pelo reforço da capacitação técnica, adaptação às normas internacionais de certificação, melhoria contínua da produtividade e eventual criação de uma Indicação Geográfica Protegida para o cacau biológico nacional[13].
Dois séculos após a introdução das primeiras plantas oriundas do Brasil, o cacau mantém-se como eixo estruturante da economia, da paisagem e da identidade de São Tomé e Príncipe. O reconhecimento internacional do sistema agroflorestal, a cooperação com parceiros europeus e o dinamismo das empresas locais confirmam que o arquipélago continua a afirmar-se como referência no segmento de cacau de qualidade.
Fontes
[1] Encerramento do PAFAE e declarações do Ministro Nilton Garrido (2025)
[2] Relatório técnico do PAFAE (2025)
[3] Dados de exportação e peso do cacau na economia nacional (2026)
[4] Estrutura da produção agrícola familiar (2023)
[5] Dados oficiais de trabalhadores agrícolas por região
[6] Introdução do cacau no Brasil e difusão atlântica
[7] Expansão da cultura cacaueira sob administração portuguesa
[8] Registos históricos da introdução do cacau em 1819
[9] Desenvolvimento histórico do café no Brasil
[10] Transferência de culturas tropicais para São Tomé e Príncipe
[11] Dados institucionais da CECAB (2025)
[12] Reconhecimento GIAHS pela FAO (2024–2025)
[13] Estudos sobre valorização e IGP do cacau biológico


