
Primeiro-Ministro de Portugal, Luís Montenegro no Web Summit de 2025, em Lisboa.
Foto: EPA
O Amália é o primeiro grande projecto estruturante da Agenda Nacional de Inteligência Artificial (ANIA)[2] e representa um marco estratégico: trata-se do primeiro modelo de linguagem concebido especificamente para o português europeu e para a cultura portuguesa[3]. Num sector dominado por sistemas treinados maioritariamente em inglês e moldados por contextos culturais anglo-saxónicos, o desenvolvimento de um modelo nacional assume uma dimensão que ultrapassa a inovação tecnológica — é uma afirmação de soberania linguística, cultural e institucional.
Num mundo em que a inteligência artificial está a transformar economias, administrações públicas e equilíbrios geopolíticos, a capacidade de desenvolver modelos próprios passou a ser entendida como um activo estratégico. Ao lançar o Amália no quadro da ANIA[2], Portugal junta-se ao grupo restrito de países que procuram assegurar controlo sobre dados, infraestruturas e aplicações críticas, alinhando-se com a agenda europeia de autonomia estratégica.
Uma agenda nacional com ambição europeia
A Agenda Nacional de Inteligência Artificial foi publicada através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026[2] e estabelece um plano de acção até 2030, com investimento superior a 400 milhões de euros[4], maioritariamente proveniente de fundos europeus. O Governo estima que a adopção acelerada de IA poderá acrescentar entre 18 e 22 mil milhões de euros ao Produto Interno Bruto português na próxima década[4], elevando de forma significativa o contributo da produtividade para o crescimento económico.

A ANIA estrutura-se em quatro eixos: infraestruturas e dados; inovação e adopção; talento e competências; responsabilidade e ética[2]. São 32 iniciativas que procuram articular universidades, centros de investigação, empresas e Administração Pública numa estratégia coerente e integrada[2].
Entre as medidas estratégicas destaca-se a candidatura portuguesa a uma das “gigafactories” europeias no âmbito do programa EuroHPC, liderada pelo Banco Português de Fomento[5]. A instalação de uma infraestrutura desta natureza permitiria reforçar a capacidade industrial e computacional do país, reduzindo dependências externas num domínio considerado crítico para a competitividade futura.
Paralelamente, está em preparação o Plano Nacional de Centros de Dados[5], com o objectivo de acelerar o desenvolvimento deste sector, incluindo zonas com licenciamento simplificado. A agenda prevê igualmente a criação de Centros de IA Sectoriais, começando pela saúde e pela indústria e robótica[5], onde o impacto potencial em produtividade e inovação é particularmente elevado.
A nível da Administração Pública, o Governo anunciou um investimento de 25 milhões de euros para adopção de soluções de IA[6], com aplicações previstas em áreas como contratação pública, processamento de facturas, recrutamento, licenciamentos e apoio jurídico. O objectivo, segundo o executivo, é utilizar a tecnologia como instrumento de valorização profissional, libertando tempo para funções de maior valor humano[6].
É neste quadro estratégico que o Amália assume centralidade.
Amália: um modelo para a língua e para o Estado
O Amália nasce com um investimento de 5,5 milhões de euros, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência[7], e é desenvolvido integralmente por entidades públicas[7]. O consórcio é liderado pelo Nova Lincs da Universidade Nova de Lisboa, em articulação com o Instituto de Telecomunicações e o Instituto Superior Técnico, envolvendo ainda as universidades de Coimbra, Porto, Minho, Beira Interior e Évora, sob coordenação da Fundação para a Ciência e Tecnologia[7][8]. O projecto Lincs, da Universidade Nova, inclui igualmente a Universidade do Algarve, a Universidade da Madeira e a Escola Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Cerca de 60 investigadores e técnicos participam directamente no projecto[8].

Segundo João Magalhães, investigador da Universidade Nova de Lisboa e um dos coordenadores do Amália, o foco da equipa tem sido construir o modelo base — o “core” algorítmico — assegurando que o sistema aprende a partir de dados curados, consegue seguir instruções humanas e responde com rigor em português europeu[8]. “Não estamos a pensar muito em aplicações neste momento; estamos muito focados em garantir que o modelo consegue seguir instruções e tem conhecimento actualizado”, sublinhou[8].

Treinado com mais de 100 mil milhões de palavras[9] e apoiado em projectos anteriores como o EuroLLM, GlórIA e vGlórIA[7], o Amália integra dados provenientes do Arquivo.pt e outros repositórios nacionais, cuidadosamente curados[7]. O modelo tem actualmente conhecimento até 2023[8] e continuará a ser actualizado de forma progressiva.
O diferencial estratégico do Amália reside na sua especialização. Ao contrário dos grandes modelos generalistas desenvolvidos por empresas tecnológicas internacionais, o modelo português foi concebido para distinguir variantes da língua, compreender especificidades lexicais e semânticas do português europeu e integrar conhecimento sobre literatura, história e cultura de Portugal[3].
Relatórios técnicos indicam que o Amália apresenta desempenho superior em português europeu face a outros modelos abertos existentes, nomeadamente em domínios como lexicologia e semântica[10]. Não pretende competir em escala com modelos de centenas de milhares de milhões de parâmetros, mas afirmar-se como ferramenta de precisão linguística e institucional.
Na sua versão final, prevista para o final de 2026[7], o Amália será multimodal, podendo interpretar e gerar texto, fala, imagem e vídeo[8]. Esta capacidade permitirá desenvolver aplicações adaptadas a diferentes contextos administrativos e educativos.
Soberania digital e projecção internacional
A decisão de utilizar inicialmente o Amália em contexto governamental reflecte uma opção estratégica[11]. Numa primeira fase, o modelo será integrado em aplicações específicas da Administração Pública, incluindo apoio jurídico, análise de processos administrativos, atendimento digital e gestão documental[11].
A execução operacional ficará a cargo da Agência para a Modernização Administrativa, enquanto a Fundação para a Ciência e Tecnologia coordena o treino e a infraestrutura[7]. Está igualmente prevista a criação de um Centro de Excelência em Inteligência Artificial na Agência para a Reforma Tecnológica do Estado[6], com a missão de evitar duplicações, garantir interoperabilidade e acelerar a adopção transversal de soluções.
Esta abordagem enquadra-se numa tendência europeia mais ampla: reforçar capacidades próprias em sectores estratégicos, reduzir dependências tecnológicas e assegurar conformidade com princípios éticos e regulatórios definidos no espaço comunitário.
No plano geopolítico, a inteligência artificial tornou-se um dos principais eixos de competição entre grandes blocos económicos. Estados Unidos e China lideram actualmente o desenvolvimento de modelos de larga escala, enquanto a União Europeia procura afirmar uma via própria, baseada em regulação, responsabilidade e autonomia estratégica.
Para o espaço lusófono, o projecto assume igualmente relevância. A criação de um modelo treinado especificamente em português europeu demonstra que é possível desenvolver inteligência artificial ancorada numa língua que é falada por mais de 260 milhões de pessoas no mundo[12]. A médio prazo, abre-se potencial para cooperação técnica e científica entre países de língua portuguesa, incluindo no intercâmbio de dados, investigação conjunta e desenvolvimento de aplicações adaptadas a diferentes realidades nacionais.

Foto: Imagem ilustrativa gerada por IA/ChatGPT
Mais do que um exercício tecnológico, o Amália representa uma afirmação estratégica: a língua portuguesa não é apenas património cultural, mas também activo económico e instrumento de soberania digital. Ao investir na sua própria inteligência artificial, Portugal sinaliza que pretende participar activamente na definição das regras e das infraestruturas da nova economia digital.
Num momento em que a transformação tecnológica redefine fronteiras e dependências, a Agenda Nacional de Inteligência Artificial e o lançamento do Amália constituem uma declaração de intenções clara: a inovação, quando articulada com identidade, ciência e estratégia, pode tornar-se instrumento de projecção internacional e de reforço da autonomia nacional.
Fontes
[1] Declarações do Primeiro-Ministro Luís Montenegro na Web Summit, Lisboa, Novembro de 2025.
[2] Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, Agenda Nacional de Inteligência Artificial (Diário da República).
[3] Ministério da Juventude e Modernização de Portugal / Ministério da Educação, Ciência e Inovação de Portugal, Comunicado sobre o lançamento do Amália.
[4] Ministério da Reforma do Estado de Portugal, Q&A sobre a Agenda Nacional de Inteligência Artificial (impacto no PIB e investimento global).
[5] Ministério da Reforma do Estado de Portugal, Informação sobre candidatura à gigafactory europeia e Plano Nacional de Centros de Dados.
[6] Ministério da Reforma do Estado de Portugal, Investimento de 25 milhões de euros para adopção de IA na Administração Pública e criação de Centro de Excelência.
[7] Comunicado conjunto PRR sobre financiamento de 5,5 milhões de euros e entidades envolvidas no Amália.
[8] Agência Lusa / Diário de Notícias, “Versão base do modelo de IA português Amália concluído”, 30 de Setembro de 2025.
[9] 4gnews, Dados técnicos sobre treino do modelo (100 mil milhões de palavras).
[10] Ministério da Reforma do Estado de Portugal, Relatório técnico sobre desempenho do modelo em português europeu.
[11] Público, Informação sobre utilização do modelo exclusivamente na Administração Pública.
[12] Dados demográficos internacionais sobre número de falantes de língua portuguesa.


