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O caju como vector de transformação económica e industrial na Guiné Bissau
Tempo de liberação:2026-08-20
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Foto: Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura

 

A Guiné‑Bissau iniciou oficialmente, em Março de 2026, a nova campanha de comercialização e exportação da castanha de caju, reafirmando o papel estratégico deste produto na economia nacional. O arranque da campanha surge num contexto de reforço da regulação do sector, aposta na transformação local e consolidação de parcerias institucionais e internacionais orientadas para o aumento do valor acrescentado.


Durante a cerimónia de lançamento da campanha de 2026, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação Internacional e Comunidades, João Bernardo Vieira, declarou que “O Governo pretende assegurar uma campanha mais estruturada, equilibrada e justa para todos os actores ao longo da cadeia de valor, dos produtores aos exportadores. O caju é uma verdadeira riqueza nacional e constitui uma das bases fundamentais da estabilidade económica e social do nosso país⁠[1].” 

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Abertura Oficial da campanha de comercialização e exportação da castanha de caju a 11 de Março de 2026

Foto: Agência de Notícias da Guiné (ANG)


Na sequência da reunião do Conselho de Ministros que aprovou o decreto da campanha, o Ministro da Comunicação Social, Abduramane Turé, sublinhou que “O Conselho de Ministros dedicou especial atenção à campanha de comercialização da castanha de caju para 2026, que decorre sob o lema ‘Tolerância zero ao contrabando de caju’, tendo aprovado a estrutura de comercialização e exportação para o presente ano⁠[2].” 


O Presidente da República de Transição exortou igualmente os membros do Governo a envolverem‑se directamente na fiscalização da campanha, considerando esta uma “derradeira oportunidade” para valorizar o caju enquanto produto estratégico para a economia nacional⁠[2].


A relevância do caju na estrutura produtiva guineense é inequívoca. A castanha representa cerca de 90% das exportações nacionais e constitui a principal fonte de rendimento para milhares de famílias rurais. Em 2024, a produção atingiu 178.000 toneladas, das quais aproximadamente 163.000 toneladas foram exportadas. Já em 2025, as exportações ultrapassaram as 250.000 toneladas, com a Índia e o Vietname entre os principais destinos. Segundo dados oficiais apresentados no lançamento da campanha, a Guiné Bissau ocupa actualmente a sétima posição mundial na produção de castanha de caju em bruto[1].

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Foto: ANG

 

Durante a cerimónia de encerramento da campanha de 2024, o Primeiro Ministro Rui Duarte Barros afirmou que “A castanha de caju não é apenas um produto agrícola; é fonte de subsistência para milhares de famílias e constitui a espinha dorsal da economia da Guiné Bissau[3].” 

 

Reforço da regulação e definição de preços

Para a campanha de 2026, o Governo fixou o preço de referência ao produtor em 410 francos CFA por quilograma, estabelecendo igualmente o preço ao intermediário em 478 francos CFA por quilograma. A base tributária para a exportação foi definida em 1.050 dólares norte americanos por tonelada[2].Estas medidas procuram assegurar maior previsibilidade e equilíbrio no mercado interno, ao mesmo tempo que reforçam o controlo sobre práticas como o contrabando, considerado um dos desafios estruturais do sector.


O Ministro do Comércio e Indústria, Jaimentino Có destacou, na abertura da campanha que “A castanha de caju é a actividade económica mais importante do país, sendo um produto estratégico para a economia nacional e representando cerca de 90% das exportações[3].”

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Ministros do Comércio e Indústria, Jaimentino Có, da Economia, Plano e Integração Regional, Mamadú Mudjetaba Djaló, e dos Transportes, Telecomunicações e Economia Digital, Florentino Mendes Pereira durante abertura da campanha de 2026

Foto: Lusa


 

O desempenho da campanha de 2024 demonstrou o potencial de organização do sector. Embora o preço mínimo fixado nesse ano tenha sido de 300 francos CFA por quilograma, o preço médio pago aos produtores atingiu 570 francos CFA, representando um aumento significativo face ao valor de referência. A campanha envolveu 49 empresas e mais de 1.700 intermediários, com cerca de 92% da produção exportada[3].


Da exportação em bruto à valorização industrial

Apesar do peso das exportações, a estrutura do sector tem sido historicamente caracterizada pela predominância da exportação de matéria prima. Actualmente, apenas cerca de 10% da produção é transformada localmente[4].

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Neste contexto, a criação da SOCA GB SA — Sociedade de Caju da Guiné Bissau — representa um passo relevante na estratégia de industrialização do sector. Formalizada em Março de 2026, a empresa conta com o apoio financeiro do Banco Oeste Africano de Desenvolvimento (BOAD), no montante de 9,150 mil milhões de francos CFA, incluindo participação no capital social[4].


Na sessão constitutiva, o Ministro da Economia, Planeamento e Integração Regional, Mamadu Mudjetaba Djaló, afirmou que “A nossa ambição é clara: transformar localmente metade da nossa produção até 2030, para que a riqueza criada beneficie directamente a economia nacional e as comunidades produtoras[4].”


Por sua vez, o Director do Departamento de Agricultura e Agro Indústria do BOAD, Toussaint Badolo, salientou que “O Banco permanece comprometido com a estruturação dos sectores estratégicos. O impacto do nosso apoio deve traduzir se na melhoria sustentável das condições de vida das populações rurais e na consolidação das finanças públicas[4].”


O objectivo estratégico é ambicioso: elevar a taxa de transformação local de 10% para 50% até 2030. Esta meta visa não apenas aumentar o valor acrescentado interno, mas também gerar emprego sustentável, particularmente para jovens e mulheres, reforçar as receitas fiscais e estabilizar a economia rural.


Ao privilegiar a transformação local — através do descasque, processamento e eventual diversificação de subprodutos — a Guiné Bissau procura reduzir a vulnerabilidade associada à exportação exclusiva de castanha em bruto e integrar se de forma mais competitiva nas cadeias internacionais de valor.


 

Sustentabilidade e diversificação: o contributo da FAO

Paralelamente às medidas governamentais e à criação da SOCA, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) tem vindo a apoiar o reforço da cadeia de valor do caju na Guiné Bissau, no âmbito da iniciativa “One Country, One Priority Product[5]”.


Segundo a FAO,“O objectivo é promover boas práticas de produção e transformação local, aumentando a produtividade, a sustentabilidade e os rendimentos das comunidades rurais[5].”O programa inclui acções de formação em boas práticas agrícolas, modernização técnica e diversificação produtiva. Cerca de cinquenta produtores beneficiaram de capacitação inicial, com aplicação prática nas regiões de Biombo, Cacheu e Oio. 


Entre as medidas implementadas destacam se a redução da densidade excessiva de cajueiros em pomares antigos, a introdução de culturas complementares como arroz de sequeiro, amendoim e hortícolas, e a adopção de modelos agroflorestais sustentáveis. A instalação de colmeias em novos pomares constitui igualmente uma inovação relevante, promovendo a polinização e criando uma fonte adicional de rendimento através da produção de mel.


No domínio da transformação, cinquenta beneficiários receberam formação específica e foram distribuídas dez máquinas manuais de descasque para pequenas unidades locais[5].


Estas intervenções contribuem para aumentar a produtividade, reduzir a dependência da monocultura sazonal e promover uma agricultura mais resiliente e de baixo carbono.

 

Desafios estruturais e oportunidades futuras

Apesar dos progressos registados, o sector enfrenta desafios que exigem continuidade de políticas públicas e reforço institucional. Entre eles destacam se o acesso ao financiamento agrícola, a melhoria das infra estruturas logísticas e portuárias, e a necessidade de aprofundar a mecanização e a inovação tecnológica.


O secretário geral interino da Câmara de Comércio, Indústria, Agricultura e Serviços, Saliu Bá, referiu recentemente que “O sector bancário nacional tem limitado o financiamento das actividades ligadas ao caju, invocando dificuldades na obtenção de garantias, morosidade na resolução de litígios e volatilidade dos preços fixados[3].”


A consolidação da transformação local abre igualmente espaço para o desenvolvimento de novos produtos derivados do caju, incluindo óleo, farinha, bebidas e aplicações industriais, aumentando o leque de exportações e o valor acrescentado nacional.

Neste contexto, a cooperação internacional pode desempenhar um papel determinante. Países com experiência consolidada no processamento de caju dispõem de conhecimento técnico e soluções industriais que podem contribuir para acelerar a industrialização do sector guineense.


A dimensão internacional do sector do caju na Guiné Bissau não se limita ao apoio técnico da FAO. O país mantém uma forte integração nas cadeias globais de transformação, particularmente com a Índia e o Vietname, principais destinos da castanha em bruto. Dados oficiais indicam que a quase totalidade da produção exportada é absorvida por mercados asiáticos para processamento industrial, o que evidencia simultaneamente a relevância dessas parcerias comerciais e o potencial de transferência de tecnologia e know how no domínio da transformação local[6].

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Foto: Agroportal


Paralelamente, instituições financeiras multilaterais têm vindo a apoiar o reforço do enquadramento macroeconómico e institucional do país. O Banco Mundial aprovou em 2025 novas operações de apoio à governação fiscal e à melhoria da prestação de serviços públicos, com impacto indirecto na estabilidade do ambiente de negócios e no sector agrícola[7]. Estudos recentes do Fundo Monetário Internacional sublinham igualmente a importância de aumentar a competitividade da transformação local de caju, reduzindo vulnerabilidades associadas à volatilidade dos preços internacionais e reforçando a produtividade das unidades industriais nacionais[8]. Estes instrumentos de cooperação financeira e técnica complementam os esforços nacionais de industrialização e criam condições estruturais para a consolidação do sector.


A trajectória recente demonstra que o país está a evoluir de um modelo predominantemente exportador de matéria prima para uma estratégia estruturada de valorização interna. O alinhamento entre regulação governamental, financiamento regional através do BOAD e apoio técnico da FAO configura uma base sólida para a transformação progressiva do sector.


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O caju mantém se como a principal âncora da economia da Guiné Bissau. Contudo, mais do que um produto de exportação, assume se cada vez mais como vector de transformação económica e industrial. A campanha de 2026 marca uma etapa de consolidação regulatória e reforço institucional. A criação da SOCA GB SA sinaliza a ambição de industrialização e aumento do valor acrescentado. A intervenção da FAO introduz práticas sustentáveis e diversificação produtiva, contribuindo para a estabilidade rural e a inclusão social.


Se os objectivos definidos forem progressivamente alcançados — nomeadamente a meta de 50% de transformação local até 2030 — o sector do caju poderá afirmar se não apenas como base exportadora, mas como motor de desenvolvimento industrial e de geração de emprego qualificado. A experiência recente demonstra que a combinação de políticas públicas consistentes, investimento estruturado e cooperação internacional pode transformar um recurso agrícola estratégico num instrumento duradouro de crescimento económico e integração nas cadeias globais de valor.



Fontes

[1] Ministério dos Negócios Estrangeiros, Cooperação Internacional e Comunidades da Guiné Bissau, Lançamento da Campanha de Comercialização e Exportação de Caju 2026, 11 Março 2026. Disponível em: https://mneci.gov.gw

[2] Conselho de Ministros da Guiné Bissau, Comunicado Oficial sobre a Campanha 2026, 10 Março 2026. Disponível em: https://governo.gov.gw

[3] Declarações oficiais no âmbito das campanhas 2024 2026, incluindo intervenções do Primeiro Ministro Rui Duarte Barros, do Ministro do Comércio e Indústria e da Câmara de Comércio, Indústria, Agricultura e Serviços da Guiné Bissau. Síntese noticiosa disponível em: https://www.gwnews.gw

[4] Ministério da Economia, Planeamento e Integração Regional da Guiné Bissau e Banco Oeste Africano de Desenvolvimento, Sessão Constitutiva da SOCA GB SA, Março 2026. Disponível em: https://www.boad.org

[5] Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, Strengthening the cashew nut value chain in Guinea Bissau, 16 Março 2026. Disponível em: https://www.fao.org

[6] Direcção Geral do Comércio Externo da Guiné Bissau, dados sobre exportação de caju para a Índia e Vietname, Junho 2025.

[7] Banco Mundial, Guinea Bissau Reform Advancement Development Policy Financing, 2 Maio 2025. Disponível em: https://www.worldbank.org

[8] Fundo Monetário Internacional, Guinea Bissau – Selected Issues, Junho 2025. Disponível em: https://www.imf.org