
Ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, durante o lançamento de satélites portugueses, Lisboa, 30 Março 2026
Foto: Governo de Portugal
Portugal deu recentemente um novo passo decisivo na consolidação da sua política espacial ao lançar seis satélites no âmbito da Agenda New Space Portugal. O lançamento ocorreu a 30 de Março de 2026, a partir da Califórnia, através de um foguetão da empresa SpaceX, conforme anunciado pelo Governo da República Portuguesa[1]. A iniciativa visa criar um serviço de navegação marítima em tempo real de uso civil e militar, através do reforço da Constelação Lusíada e da Constelação do Atlântico[1].
Seis satélites portugueses foram colocados em órbita. Quatro destinam-se à Constelação Lusíada — baptizados Agustina, Camões, Pessoa e Saramago, em homenagem a grandes figuras da literatura portuguesa — juntando-se a um satélite já existente. Os outros dois — um satélite SAR (Radar de Abertura Sintética) da Força Aérea e um satélite ótico VHRLight NexGen — integram a Constelação do Atlântico, que passa assim a contar com cinco satélites em órbita[1].
A Constelação do Atlântico constitui o eixo central desta estratégia. Concebida para assegurar a monitorização permanente do território nacional e da vasta Zona Económica Exclusiva portuguesa, combina sensores ópticos de muito alta resolução com tecnologia radar, permitindo observar a superfície terrestre e marítima em quaisquer condições meteorológicas, de dia e de noite. Num país com uma dimensão marítima estratégica no contexto europeu, esta capacidade representa um instrumento essencial de soberania, segurança e conhecimento.

Dois dos satélites lançados por Portugal
Foto: cortesia de Lusospace
Dos seis satélites agora colocados em órbita, dois destinam-se a reforçar a Constelação do Atlântico, enquanto quatro integram a Constelação Lusíadas, orientada para o fortalecimento das comunicações e da navegação marítima. Este reforço insere-se na Agenda New Space, financiada em parte pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que tem permitido acelerar o investimento em infraestruturas e capacidades espaciais. No caso da Constelação Lusíadas, o investimento ronda os 15 milhões de euros, dos quais cerca de 10 milhões são assegurados pelo PRR, complementados por financiamento privado.
Segundo o Ministro da Economia e da Coesão Territorial, Castro Almeida, este momento representa “o dia mais marcante” da presença de Portugal no espaço, sublinhando que se trata apenas do início de uma nova fase da política espacial nacional.
Mais do que um avanço tecnológico, este lançamento representa uma afirmação clara da ambição nacional: transformar o espaço num activo estratégico ao serviço da economia, da segurança e da sustentabilidade.
Um projecto de 16 satélites para uma nova política de dados
A Agenda New Space prevê a criação de uma constelação nacional composta por 16 satélites, cuja operacionalização deverá estar concluída ao longo dos próximos anos. O objectivo é dotar Portugal de capacidade autónoma para desenvolver uma verdadeira política de dados espaciais, garantindo acesso contínuo, previsível e soberano à informação proveniente da observação da Terra.
Portugal é o segundo maior país da Europa em dimensão marítima, considerando a sua Zona Económica Exclusiva. A monitorização do Atlântico — das rotas comerciais à dinâmica atmosférica, da vigilância ambiental à protecção dos recursos marinhos — exige sensores permanentes e dados em tempo quase real. Essa capacidade será determinante para a segurança marítima, para o combate aos incêndios florestais, para o cadastro agrícola, para a gestão ambiental e para a resposta a fenómenos extremos associados às alterações climáticas.
A visão estratégica portuguesa assenta num princípio estruturante: tal como os sistemas de navegação por satélite democratizaram o acesso ao posicionamento global, também os dados de observação da Terra devem tornar-se plataformas acessíveis que potenciem novas aplicações e novos modelos de negócio. A iniciativa Planeta Digital pretende fundir dados de múltiplas fontes e disponibilizar serviços de elevado valor acrescentado, estimulando o surgimento de start-ups e consolidando uma economia de dados de base espacial.
O projecto New Space Portugal e os seus parceiros
O projecto New Space Portugal, liderado pela GEOSAT, reúne um consórcio de 41 entidades que integra empresas tecnológicas, centros de engenharia, universidades, instituições científicas e entidades públicas. Entre os protagonistas destacam-se o CEiiA, a N3O, a LusoSpace e a Força Aérea Portuguesa, para além de múltiplos parceiros industriais e académicos que asseguram competências nas áreas de engenharia de sistemas, sensores, comunicações, integração de plataformas e serviços de dados.
O consórcio organiza-se em várias linhas de actuação complementares. A Constelação do Atlântico assegura a monitorização permanente do oceano e do território nacional, reforçando a vigilância marítima e ambiental. A componente AIS/VDES permite identificar e acompanhar embarcações em tempo real, contribuindo para a segurança da navegação e para o controlo do tráfego marítimo. A Constelação SAR utiliza tecnologia radar para observar a Terra em quaisquer condições meteorológicas, incluindo sob cobertura de nuvens ou durante a noite. A Open Constellation promove a integração e interoperabilidade de diferentes fontes de dados, nacionais e internacionais. Finalmente, a plataforma Planeta Digital transforma a informação recolhida em serviços e aplicações económicas concretas.
Foi igualmente formalizado um acordo de cooperação com a empresa internacional Satellogic, envolvendo a N3O e a GEOSAT, estabelecendo um quadro de colaboração no desenvolvimento de novas tecnologias e serviços downstream, incluindo o Atlantic Data Hub. Este modelo colaborativo reflecte a nova abordagem europeia ao espaço: integração industrial, partilha de conhecimento e reforço da autonomia estratégica.
A Agência Espacial Portuguesa e o crescimento do sector
Criada em 2019, na sequência da Estratégia Nacional para o Espaço aprovada em 2018, a Agência Espacial Portuguesa coordena o desenvolvimento do sector e articula a participação nacional nos programas da Agência Espacial Europeia (ESA), organização de que Portugal é membro desde 2000.
O ecossistema espacial nacional integra actualmente cerca de 87 empresas e 46 centros de investigação. A ambição estratégica aponta para a mobilização de cerca de 2,5 mil milhões de euros até 2030, com o objectivo de multiplicar o investimento no sector e criar mil novos empregos qualificados. Portugal participa em missões científicas de referência da ESA, como PLATO, ARIEL e EUCLID, bem como em projectos tecnológicos inovadores como o ClearSpace One, dedicado à remoção de detritos espaciais.

Fonte: Cortesia da AEP
Uma trajectória iniciada em 1993
A actual ambição espacial portuguesa tem raízes históricas. O primeiro satélite nacional, o PoSAT-1, foi lançado a 25 de setembro de 1993, com 50 quilogramas, tendo sido desenvolvido por um consórcio de empresas e universidades portuguesas sob a liderança de Fernando Carvalho Rodrigues[3].
Nas últimas décadas, o país evoluiu de uma participação essencialmente formativa para uma estratégia de desenvolvimento autónomo. Em 2024 foi lançado o Aeros MH-1, destinado à monitorização do Atlântico, seguido do ISTSat-1, desenvolvido pelo Instituto Superior Técnico[3].
A evolução demonstra a passagem de uma fase pioneira para uma etapa de consolidação estratégica, centrada na criação de capacidade industrial e tecnológica nacional.

Fonte: Cortesia da AEP
Santa Maria: um novo hub europeu de retorno espacial
Na ilha de Santa Maria, nos Açores, está em desenvolvimento o Space Hub dos Açores, infraestrutura estratégica destinada a posicionar Portugal como ponto europeu de retorno de veículos espaciais reutilizáveis. O projeto deverá receber um investimento de 15 milhões de euros da Agência Espacial Europeia e inclui três componentes principais: a zona de aterragem (landing site), um Centro Tecnológico e uma estação terrestre (ground station) para monitorização de missões[4].

Sede da Agência Espacial Portuguesa na Ilha de Santa Maria nos Açores
Foto: AEP
O voo inaugural do veículo europeu Space Rider está previsto para 2028, exigindo que as obras avancem ainda este ano. Segundo Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, Portugal encontra-se “numa corrida contra o tempo” para cumprir o calendário da missão[4].
Uma visão estratégica para o futuro
O lançamento dos seis novos satélites não constitui apenas um marco tecnológico. Representa a consolidação de uma estratégia integrada que articula soberania de dados, economia digital, sustentabilidade ambiental e cooperação internacional.
Num contexto em que o espaço assume crescente relevância geopolítica e económica, Portugal posiciona-se como actor atlântico com visão global — determinado em transformar conhecimento científico em capacidade estratégica e em afirmar-se como plataforma europeia de inovação espacial.
Fontes
[1] Governo da República Portuguesa – XXV Governo Constitucional, “Lançados satélites portugueses que permitirão serviço de navegação marítima em tempo real”, 30 de Março de 2026.
[2] New Space Portugal, “The most ambitious Portuguese project dedicated to New Space”, 2026.
[3] Fundação Portuguesa das Comunicações, “PoSAT-1 no espaço há 32 anos”, 25 de Setembro de 2025.
[4] ECO, Ana Marcela, “Obras do Space Hub Açores têm de arrancar até final de junho. ‘Estamos numa corrida contra o tempo’”, 6 de Março de 2026.


