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“O Plano de Acção 2024-2027 representa uma oportunidade crucial para Cabo Verde”
Tempo de liberação:2025-02-25
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O Embaixador de Cabo Verde em Pequim sublinha a importância da relação com a China para o desenvolvimento do país africano. Neste contexto, Arlindo do Rosário salienta a relevância do Fórum de Macau enquanto “catalisador significativo” dos laços bilaterais.

Como caracteriza o estado das relações actuais entre Cabo Verde e a China?

As relações actuais entre Cabo Verde e a China podem ser caracterizadas como robustas, dinâmicas e em contínua evolução. O início formal dessa parceria remonta ao dia 25 de Abril de 1976, poucos meses após a independência de Cabo Verde, e, desde então, a cooperação entre os dois países tem-se intensificado e diversificado de maneira significativa.


Cabo Verde tem colhido diversos benefícios da cooperação com a China, especialmente através de doações e empréstimos sem juros. Esses recursos têm sido fundamentais para o desenvolvimento de infra-estruturas essenciais, abrangendo áreas administrativas, económicas e sociais.


Além disso, a assistência técnica proporcionada pela China tem sido uma componente vital dessa colaboração. Na área da saúde, por exemplo, médicos e especialistas chineses têm trabalhado em Cabo Verde, em equipas rotativas a cada dois ou três anos, desde há quatro décadas, contribuindo para a capacitação de profissionais locais e a melhoria dos serviços de saúde. Programas de formação de quadros nacionais têm sido implementados, visando não apenas o fortalecimento das capacidades locais, mas também a criação de uma base sólida para o futuro desenvolvimento do país.


A abertura da Embaixada de Cabo Verde em Pequim em 2001 foi um marco significativo nas relações bilaterais, simbolizando um compromisso mútuo em aprofundar a cooperação. Desde então, as interacções entre ambos os países tornaram-se mais frequentes e variadas, abrangendo áreas como o comércio, a cultura e a educação. A presença de comerciantes chineses em Cabo Verde, que se destacam pela sua resiliência e inovação, tem gerado novas oportunidades de negócios e contribuído para o crescimento do sector empresarial local.


Está sobre a mesa a possibilidade de se avançar para o aprofundamento da parceria entre Cabo Verde e a China, conforme o desejo manifestado por ambas as partes, que reconhecem o potencial dessa relação para crescer ainda mais ao longo desta década, especialmente por meio de parcerias inovadoras e investimentos estruturantes.

Do lado de Cabo Verde, qual é a avaliação em relação à parceria entre os dois Estados, em particular em áreas como as infra-estruturas, a agricultura, a educação e a saúde?

A cooperação entre Cabo Verde e a China caminha indiscutivelmente para uma parceria estratégica e tem sido vital para o desenvolvimento do nosso país, denotando um compromisso mútuo que vai para além da assistência convencional.


Na vertente das infra-estruturas, destacam-se vários projectos emblemáticos enquanto testemunhos tangíveis da parceria frutífera entre Cabo Verde e a China. São os casos do Palácio da Assembleia Nacional, o Palácio do Governo, a Barragem de Poilão, o Auditório Nacional, o Estádio Nacional, a Biblioteca Nacional, o Complexo Educativo de Santa Maria na ilha do Sal, a Maternidade e Lavandaria do Hospital Agostinho Neto, a Maternidade no Hospital Baptista de Sousa (em construção), a reabilitação do Palácio da Presidência da República, o Novo Campus da Universidade de Cabo Verde e os edifícios habitacionais de Portelinha. Ainda no campo das infra-estruturas e tecnologia, a China concedeu a Cabo Verde empréstimos concessionais para financiar as duas primeiras fases do projecto de governação electrónica, bem como a modernização dos serviços portuários e a melhoria da segurança alfandegária e aeroportuária, através da implementação de um sistema de scâneres de contentores nos principais portos e aeroportos do país.


No domínio da educação, cultura e desenvolvimento de recursos humanos, a China tem desempenhado um papel fundamental ao disponibilizar cerca de duas dezenas de bolsas de estudo anualmente para estudantes cabo-verdianos frequentarem cursos superiores em universidades chinesas. Estima-se que cerca de 400 cabo-verdianos se tenham formado na China com graus de licenciatura, mestrado ou doutoramento, contribuindo assim para o aprimoramento do capital humano do país. Além disso, vários profissionais cabo-verdianos têm beneficiado anualmente de formações de curta duração e colóquios promovidos pela China, tanto no âmbito do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), como a nível do Fórum de Macau.


A cooperação no sector da saúde é outro aspecto notável dessa parceria. A China tem fornecido assistência técnica, enviando equipas médicas para prestar serviços em Cabo Verde, e construído unidades complementares nos dois hospitais centrais, respectivamente nas cidades da Praia, na ilha de Santiago, e Mindelo, na ilha de São Vicente. Acordos de cooperação entre hospitais de Cabo Verde e o Hospital Provincial de Sichuan têm facilitado o intercâmbio de conhecimentos e boas práticas. Recentemente, celebrámos o 40.º aniversário da cooperação Cabo Verde-China na área da saúde, que teve início em 1984. Estima-se que, ao longo deste período, médicos chineses tenham atendido aproximadamente 50 mil pacientes cabo-verdianos e realizado mais de 20 mil cirurgias. O Governo de Cabo Verde reconheceu o trabalho dessas equipas médicas com condecorações, destacando a importância dessa colaboração, especialmente durante a pandemia de COVID-19. Para além da desejada continuidade desta cooperação médica, perspectiva-se a exploração de novas oportunidades e novas áreas, nomeadamente no campo da medicina tradicional chinesa.


No domínio da segurança, o projecto Cidade Segura, nas suas duas primeiras fases, também recebeu apoio da China e existe a possibilidade de se avançar para uma terceira fase, alargando para outras cidades o seu âmbito de cobertura.

No passado mês de Setembro, o Primeiro-Ministro de Cabo Verde voltou a deslocar-se à China, agora a propósito da Cimeira do FOCAC. Durante a ocasião, Ulisses Correia e Silva encontrou-se com o seu homólogo chinês, Li Qiang. Este tipo de encontro entre altos representantes de ambos os países tem sido bastante regular. Qual é a sua importância para cimentar a relação entre Cabo Verde e a China?

As visitas mútuas são fundamentais para promover e fortalecer o diálogo político entre os países. Embora as visitas de alto nível tenham diminuído devido à pandemia, Cabo Verde manteve-se um membro activo no FOCAC e no Fórum de Macau.


Em 2024, registámos várias visitas de membros do Governo cabo-verdiano tanto à Região Administrativa Especial de Macau, como ao Interior da China. Destaco a participação de uma importante delegação ministerial de Cabo Verde na 6.ª Conferência Ministerial do Fórum de Macau, realizada em Abril, que foi chefiada pelo Vice-Primeiro-Ministro e contou com a presença dos Ministros da Indústria, Comércio e Energia e da Administração Interna, e da Secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação. Ademais, os Ministros da Educação, da Agricultura e Ambiente e do Mar também visitaram a China, tendo participado em eventos significativos.


Em Setembro, Cabo Verde esteve presente na 4.ª Cimeira do FOCAC, onde o Primeiro-Ministro José Ulisses Correia e Silva liderou uma delegação ministerial composta pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Integração Regional, pela Ministra da Saúde e pelos Ministros da Administração Interna e da Indústria, Comércio e Energia. Durante o encontro com o homólogo chinês, Li Qiang, o Primeiro-Ministro expressou a intenção de aprofundar a cooperação em diversas áreas, como a economia, o comércio, o turismo, as pescas, as energias renováveis, as mudanças climáticas, os recursos humanos e a assistência médica, além de fortalecer a coordenação em questões internacionais.


Naturalmente que, para materializar estas aspirações, é essencial reforçar o diálogo político ao mais alto nível, incrementar a cooperação económica e comercial, receber mais investimentos de firmas chinesas em sectores estruturantes para a economia nacional, promover o intercâmbio e as trocas culturais e reforçar os contactos e o conhecimento entre povos. Isto de modo a fazer convergir as nossas agendas e planos de desenvolvimento, acreditando que, ao alinhar os nossos esforços nestas áreas, estaremos a dar confiança à classe empresarial e a promover uma parceria cada vez mais robusta e mutuamente benéfica para o desenvolvimento sustentável e a prosperidade das nossas nações.

Como avalia o papel do Fórum de Macau no âmbito da cooperação entre Cabo Verde e a China?

Desde a sua criação, o Fórum de Macau tem desempenhado um papel fundamental na promoção das relações entre Cabo Verde e a China. O país tem-se envolvido activamente neste mecanismo, beneficiando das oportunidades de diálogo e colaboração que ele proporciona. O Fórum de Macau serve como uma plataforma crucial para a troca de experiências e conhecimentos, estimulando a cooperação em áreas estratégicas como o comércio, a formação de recursos humanos, os investimentos, a cultura e o turismo.


Ao longo dos anos, Cabo Verde tem implementado com êxito diversas iniciativas alinhadas com os Planos de Acção do Fórum de Macau. Esse compromisso contínuo não apenas fortalece a própria estrutura do Fórum de Macau, mas também eleva Macau a um estatuto de destaque como centro de cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa. Além disso, essa interacção reforça os laços históricos e estratégicos entre Cabo Verde e a China, sempre sustentados pelos valores multilaterais que o Fórum de Macau defende. Assim, é evidente que o Fórum de Macau tem sido um catalisador significativo para o desenvolvimento das relações bilaterais, promovendo um futuro de cooperação frutífera e sustentável.

No seguimento da aprovação do Plano de Acção (2024-2027) da 6.ª Conferência Ministerial do Fórum de Macau, que perspectivas se abrem para Cabo Verde?

Com a aprovação do Plano de Acção para 2024-2027 do Fórum de Macau, Cabo Verde está posicionado para fortalecer a cooperação com a China, em linha com as suas prioridades governamentais. Tal visa um desenvolvimento sustentável, com foco em áreas fundamentais para o crescimento do país, nomeadamente no campo das economias azul, verde e digital.


No âmbito da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, Cabo Verde tem cooperado com a China desde 2018 para viabilizar projectos estratégicos como a Zona Económica Especial Marítima em São Vicente (ZEEMSV). A continuação dessa parceria é fundamental para a implementação da ZEEMSV, para fazer do país uma plataforma marítima e logística internacional de referência na região da África Ocidental e do Atlântico Médio, envolvendo vários subsectores, como o portuário, a reparação e construção naval, as pescas e a aquacultura, o turismo, a indústria e o comércio, as energias renováveis e o urbanismo, bem como o desenvolvimento integrado da Região Norte (Barlavento) de Cabo Verde.


Esta visão foi reafirmada em Outubro passado pelo Ministro do Mar, Eng. Jorge Santos, durante a sua participação na qualidade de orador convidado no Fórum Global de Desenvolvimento sobre o Oceano, que decorreu na cidade chinesa de Qingdao. Ali, foi manifestado o interesse de Cabo Verde no aprofundamento dessa cooperação, designadamente na elaboração de estudos detalhados, no financiamento de infra-estruturas de apoio e na atracção de investimentos produtivos, bem como na prospecção de recursos marítimos, que permitirão alavancar a sua implementação.


Na economia verde, há oportunidades para projectos de energias renováveis e de gestão sustentável, com a troca de experiências com a China na área das tecnologias modernas. A cooperação na economia digital permitirá implementar infra-estruturas tecnológicas e a capacitação em tecnologias de informação e comunicação, modernizando sectores como a administração pública e a educação.


A industrialização também é uma prioridade, buscando investimentos que fortaleçam as cadeias de valor locais, acompanhados por formação técnica e profissional. Por fim, o turismo será impulsionado pela diversificação da oferta e valorização da cultura, com a cooperação chinesa a contribuir para a conectividade aérea e intercâmbio cultural.


Assim, o Plano de Acção para 2024-2027 representa uma oportunidade crucial para Cabo Verde reforçar o seu papel no Fórum de Macau e avançar em direcção aos seus objectivos de desenvolvimento sustentável.

Do ponto de vista do tecido empresarial cabo-verdiano, que oportunidades podem ser encontradas no mercado chinês?

O mercado chinês representa uma oportunidade valiosa para o tecido empresarial cabo-verdiano, especialmente no que diz respeito à aquisição de equipamentos, materiais e insumos essenciais para diversos sectores da economia. Os empresários de Cabo Verde enfrentam desafios significativos, como a limitação de recursos e a necessidade de diversificação económica. Nesse contexto, a China, como uma das maiores economias do mundo e líder em manufactura, oferece uma vasta gama de produtos com uma excelente relação custo-benefício.


Essa dinâmica possibilita que os empreendedores cabo-verdianos modernizem os seus negócios e aumentem a sua competitividade em áreas prioritárias para o desenvolvimento do país. O acesso ao mercado chinês facilita a aquisição de equipamentos industriais, tecnológicos e agrícolas a preços acessíveis, impulsionando sectores cruciais como a construção civil, energias renováveis, tecnologias de informação e comunicação e logística.


Ademais, o mercado chinês não apenas proporciona vantagens competitivas em termos de custo e diversidade de produtos, mas também é um ambiente propício para a aprendizagem e transferência de conhecimentos. Os empresários cabo-verdianos têm a chance de beneficiar do intercâmbio com fornecedores chineses, participando em grandes feiras, exposições e programas de capacitação. Esses eventos oferecem uma plataforma para a identificação de soluções inovadoras, que podem ser adaptadas às necessidades do mercado local. Assim, a parceria com a China não só reforça a capacidade dos empresários de Cabo Verde de contribuir para o crescimento económico nacional, mas também abre portas para novas possibilidades de desenvolvimento sustentável, alinhadas com as necessidades e desafios específicos do país.